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segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Em defesa do romance - Mario Vargas Llosa


(…)

De uma maneira sub-reptícia, as palavras reverberam em todas as ações da vida, até mesmo nas que parecem muito distantes da linguagem. Isso, na medida em que, graças à literatura, evoluiu até níveis elevados de refinamento e de sutileza nas nuances, elevou as possibilidades da fruição humana, e, com relação ao amor, sublimou os desejos e alçou à categoria de criação artística o ato sexual. Sem a literatura não existiria o erotismo. O amor e o prazer seriam mais pobres, privados de delicadeza e de distinção, da intensidade a que chegam todos aqueles que se educaram e estimularam com a sensibilidade e as fantasias literárias. Não é exagero afirmar que um casal que haja lido Garcilaso, Petrarca, Góngora e Baudelaire ama e usufrui mais do que outro, de analfabetos semi-idiotizados pelas séries de televisão. Em um mundo iletrado, o amor e a fruição não poderiam ser diferenciados daqueles que satisfazem os animais, não iriam além da mera satisfação dos instintos elementares: copular e devorar.

(…)

O artigo completo em revista Piauí_37

terça-feira, 17 de agosto de 2010

O quarto úmido numa rua escura de Moscou



Ler Dostoievski é, antes de tudo, ser Dostoievski.


É impossível, ao longo das problemáticas e suposições em seus textos, não se transportar para um quarto mal iluminado, com uma calefação nociva afundado em um mar de edificações de uma Rússia gélida, seca e depressiva. Mais precisamente, nos transportamos para uma escrivaninha, madeira de lei, onde o autor deve ter passado longas horas datilografando nas pesadas tecladas de sua máquina de escrever seus mais profundos pensamentos. Como a narrativa presente na primeira parte de Notas do Subsolo, onde o protagonista reflete, com um prazer quase masoquista, as intempéries e os deleites que personificam com clareza, visto o leitor acostumado com suas complexidades, o pensamento da sociedade na época em voga das escritas.


A narrativa extremamente pessoal que obriga protagonista-narrador a revelar segredos muito escondidos torna o romance expansivo. Expansivo porque ao longo de suas crises e desejos, os personagens impõem-se como seres gerais, abordam em suas personalidades as grandes problemáticas da sociedade, seja ela contemporânea do autor ou após.

A expansão norteia-se também pelo filosófico, onde suas criações reclamam pensamentos existencialistas ao mesmo tempo em que lutam para saber se o que dana suas vidas é o ambiente em que vivem ou elas mesmas.


Ao fim da leitura, visto uma experiência árdua ou não, retorna-se ao cenário real, no canto que for do mundo, porém, esse chão não mais será como antes. Imprime-se uma atenção ao fato de que mesmo em um lugar de condições climáticas adversas ao do norte europeu, o resultado na cabeça de quem lê é o mesmo, estar dentro de uma sociedade com seus problemas e com pessoas lutando para sobreviverem sãs. De qualquer forma, é adicionado um aprendizado sobre onde procurar um escape de tal pressão, e também onde não procurar. Pois frieza e insensibilidade não advêm exclusivamente do clima, advêm também das próprias pessoas.

domingo, 18 de julho de 2010

O olho que tudo vê

Uma breve passagem que ocorre dentro da trama de Ensaio sobre a Cegueira, livro homônimo do ganhador do Nobel de literatura, pela obra em questão, José Saramago, narra a reflexão de uma personagem enquanto única com visão em meio à uma leva de cegos desamparados. O trecho pode ser tomado como exemplo do resto do mundo em relação ao fotógrafo profissional. Nas palavras da personagem, “isto pareceu-lhe subitamente indigno, obsceno. Não tenho o direto de olhar se os outros não me podem olhar a mim, pensou.", aqui, elevada a essa situação, permite-se refletir que, ao alto de sua superioridade sensorial, ela não queria enxergar aquilo, não queria acarretar com o fardo de ser responsável por ver aquilo que os outros, por mais cientes e íntegros da situação, não viam.

O fotógrafo é dotado de habilidade indispensável à seu ofício, a câmera - com toda sua velocidade, fôlego e tecnologias – acaba por seu um simples equipamento, a grandiosidade está na apuração de seu olho, na visão que habilmente capta não só além, mas consegue dimensionar certas características do mundo pouco evidentes aos olhos destreinados. No romance de Saramago, a personagem repudia poder ver aquilo que serviria como um alerta a todos, o fotógrafo tem função de assumir essa tarefa e denunciar aos cegos (equivalentes às pessoas sem a visão do fotógrafo) o que ocorre bem diante deles. Dividir sua visão com o mundo para também ensiná-lo a ver as coisas desse ângulo. Deve levar o público a refletir sobre a mensagem e todo o código conotativo que compõe a foto para, com isso, dar autonomia em captar essa e outras visões complexas da realidade. Invariavelmente, com o balanço da situação, o lado ruim, feio e decadente pesa mais, por isso a missão de revelar essas verdades tende ao árduo, ao delicado e, por muitas vezes, ao cansativo.

Óbvio nunca foi sinônimo desse trabalho. Enquanto muitos tentam tirar a melhor foto no melhor lugar com a melhor situação, um amador caminha na rua, olha para o lado, vê dois meninos com trajes impecáveis indiferentes aos outros três humildemente vestidos que com eles dividem a calçada, sobrepõe a câmera ao olho, ajusta o foco, a máquina faz clique. Esta hipotética situação realmente ocorrera, entretanto, com um profissional da fotografia jornalística, Jimmy Sime, na Londres de 1937. Sua simples avidez em captar aquilo que ele achara ser uma boa foto, revelou-se uma mensagem deveras importante: a foto ilustrava o escandaloso abismo entre ricos e pobres na Grã-Bretanha. Fotógrafos de guerra têm a tarefa de registrar as situações do front para o mundo, Nick Ut, fotógrafo vietnamita, ouve gritos desesperados incomuns, não são soldados, são crianças, munido de câmera, congela a cena. O senso fotográfico de Ut levou-o a influenciar o fim do conflito no Vietnã com sua foto icônica.

Essas e mais uma miscelânea de fotos – cabíveis como registros da realidade negra e depreciativa, excluindo, no presente estudo, as conotativamente positivas, essas, tão numerosas quanto as negativas – foram tanto extraordinárias quanto acidentais. Acidentes pela significância da situação em quem foram captadas, contudo, acidental, nesse caso, não dá sentido apenas para o clique da câmera e momento ocasional, se dá também na abrangência e importância adquiridas após vir á público, destinos esses que não se encontravam previamente nos planos de quem tirou aquela foto.

Retornando à Saramago e seu ensaio literário sobre a primitividade explosiva do ser humano, a personagem, ainda provida de visão, por conviver e estar presente no meio do grupo de cegos (por motivos apresentados no romance), ao que tudo indica, tornar-se-á também cega com o tempo. Em se tratando da realidade, o fotógrafo, enquanto artista visionário – ladeado aos pintores, escultores, cineastas, escritores, poetas, etc -, deve avaliar sua enorme contribuição em denunciar os fatos, mostrar a verdade. Sem essa avaliação a autonomia de enxergar além enfraquece. Assim como deixa de progredir, deixa de ensinar, e, gradualmente, aquele olho hábil e servente a ver o que ninguém vê, cega.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

E-mail de Voltaire a Rousseau - Agosto de 1775

"Recebi, senhor, vosso novo livro contra o gênero humano, e vos agradeço por isso. Vós agradareis aos homens, sobre quem fala vossas verdades, e não os emendará. Ninguém poderia pintar um quadro com cores mais fortes dos horrores da sociedade humana, para os quais nossa ignorância e debilidade tem tanta esperança de consolo. Ninguém jamais empregou tanta vivacidade em nos tornar novamente animais: pode-se querer andar com quatro patas, quando lemos vossa obra. Entretanto, como já faz mais de sessenta anos que perdi este costume, percebo, infelizmente, que é impossível recomeçar, e deixo essa maneira natural àqueles que são mais dignos que vós e eu. Já não posso mais embarcar para encontrar os selvagens do Canadá, em primeiro lugar, porque as doenças de que sofro me prendem ao redor do maior médico da Europa, e não encontraria a mesma assistência junto aos Missouris. Em segundo, porque a guerra está sendo travada lá naquele país, e o exemplo de nossas nações tornou os selvagens quase tão perigosos quanto nós. Devo me limitar a ser um selvagem pacífico, na solidão que escolhi, perto de vossa pátria, onde vós devíeis estar."



Há de se espelhar, todavia, gente com classe é outra coisa.


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sábado, 26 de junho de 2010

Kerouac Versus



Retorno ao clássico desentoado estilo beat.

Tão atemporal e sagaz quanto em suas origens.

fluxo de consciência, liberdade,

Kerouac versus quem der a cara à tapa.



Kerouac VS Bukowski



“Na América, quando você acha que é o único que está percebendo alguma coisa, se sente como se fosse um rei. As mulheres deixam de ser misteriosas, as ruas são iluminadas por cada passada que damos e qualquer fodão que aparece na sua frente se transforma num verdadeiro otário. Todavia, quando você descobre que tem um monte de maluco pensando da mesma forma, de duas uma, ou você pira de vez e se entrega ao deserto, ou então se alia a eles.”[...]



terça-feira, 15 de junho de 2010

Contemporâneo...

"Não há, com efeito, nada mais aborrecido do que ser, por exemplo, rico, de boa família, ter boa aparência, ser bastante esperto e mesmo sagaz e, todavia, não ter talento, nenhuma faculdade especial, nenhuma personalidade mesmo, nenhuma idéia pessoal, não sendo propriamente mais do que "como todo mundo".

Ter fortuna, mas não ter a de Rothschild; ser de uma família honrada, mas que nunca se distinguiu por qualquer feito; ter uma boa aparência, mas, mesmo com ela, não exprimindo nada de particular; ter inteligência, mas nenhuma idéia própria; ter bom coração, mas sem nenhuma grandeza de alma; ter uma boa educação mas nem saber o que fazer com ela etc, etc...

Há uma extraordinária multidão de gente assim no mundo, muito mais até do que a muitos possa parecer. Essa multidão pode, como toda a outra gente, ser dividida em duas classes: os de inteligência limitada e os de alcance mais vasto. Os primeiros são os mais felizes. Nada é mais fácil para essa gente "comum", de inteligência restrita, do que se imaginar original e mesmo exceção, e folgar com essa ilusão, nunca chegando a perceber o equívoco.

Basta a muitas de nossas mocinhas cortarem o cabelo de certo modo e usarem óculos azuis e se cognominarem de niilistas, para ficarem de vez persuadidas de que, com isso só, obtiveram automaticamente "convicções" próprias. Basta a certos cavalheiros sentir o mais leve prurido de qualquer erupção bondosa e humanitária para que imediatamente fiquem persuadidos de que ninguém mais sente o que eles sentiram, e de que formam a vanguarda da cultura. Basta a certos indivíduos assimilar uma idéia expressa por outrem, ou ler qualquer página solta, para imediatamente acreditarem que essa é a sua opinião pessoal espontaneamente brotada de seu cérebro.

A imprudência da simplicidade é, se assim se pode dizer, espantosa, em tais casos. Por mais incrível que pareça, isso existe."

Fiodor Dostoievski, O idiota (1868)

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Milan Kundera e a condição humana


A insustentável Leveza do Ser - Romance (1984)


O cerne da filosofia universal teve seus primórdios nas terras gregas, lar de pensadores até hoje lembrados e estudados ao extremo, seja por suas descobertas como, principalmente, por suas dúvidas. Uma das discussões clássicas, primeiramente abordada por Parmênides no século VI a.C., foi a dualidade das coisas. A duplicidade dos elementos existente para o equilíbrio do universo – e, por que não, além dele. Infinitas são as exemplificações, o bem e o mal, o claro e o escuro, o dia e a noite, o Yin e o Yang, todos classificados como o lado positivo e o lado negativo para o fechamento do ciclo. Entretanto, a quase incontestável classificação de cada um gera dúvidas as quais servirão de tronco para o complexo romance A Insustentável Leveza do Ser do tcheco Milan Kundera.

Se podemos facilmente separar cada coisa entre positivo e negativo, então onde entram o peso e a leveza? Kundera, a partir dessa questão, narra a história de quatro protagonistas – dificilmente tomar algum como principal, visto a habilidade do autor em abordar cada um com suma importância - como exemplos para sua análise dicotômica. O romance é dotado de uma ternura complexa. Seus personagens são postos a prova diante de seus romances, traições e vertiginosa vontade de viver. Graças aos seus sonhos humanos de buscar a felicidade, são levados a expor-se com fim de evitar conseqüências terríveis como depressão e até insanidade.

Kundera é genial na sua construção crítica. Não reluta em expor a origem ficcional de suas crias, nascidas de devaneios alheios que, com o devido trabalho, tornaram-se vítimas dos próprios desejos. A seu bel prazer desenvolve episódios onde a opinião do leitor é encarada como parte da análise. Num dos últimos momentos do livro, onde o casal protagonista e seu inseparável cãozinho vivem momentos de união familiar, Kundera lembra nosso desenvolvimento cultural em volta do bichinho de estimação – elemento muito presente e carismático da obra. O discurso que o autor prega sobre o sentimento com um vira-lata moribundo em comparação com um humano em condições precárias é grave, repulsivo e invejável.

O discurso presente não deixa de ser opinião. E, assim como todos os casos, gostos e opiniões divergem. Portanto, a convergência com o autor é avaliada nas prioridades do leitor e no quanto se deixa levar pelos irremediavelmente apaixonados do livro. Todos são vítimas, mas tornaram-se assim pelos atos, desejos e a eterna fuga errante do negativo e a busca do positivo.

"O amor não se manifesta pelo desejo de fazer amor (pois isso
se aplica a todas as mulheres) e sim pelo desejo do sono compartilhado (isso se
aplica a uma só mulher)."

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Kafka, o mestre das frases

Francine Prose, autora de “Para ler como um escritor – Um guia para quem gosta de livros e para quem quer escrevê-los” (2008, Jorge Zahar Editor), notou uma necessidade de material para tal fim e acaba por revolucionar na abordagem do tema. Sua maneira de ensinar análises e citar obras obrigatórias revela que para os iniciantes da arte da escrita a paixão é pedra fundamental. Uma das lições iniciais de seu livro ensina sobre a insuperável importância da frase de abertura das obras. Grande parte dos escritores é apaixonada por construir belas frases, principalmente a fundamental.
Prose aponta a leitura desacelerada e atenta como método para o tamanho trabalho estilístico - em alguns casos levado ao extremo – não passar despercebido. Dada a importância da primeira frase, é ela que evidencia o que será desenrolado pelo resto das páginas e define se você vai ler até o fim.
Não importa o tamanho ou o rebuscamento, a frase pode tanto conter apenas quatro palavras como ser abarrotada de subordinações ordenadas em cascata. É ela que desencadeia o mistério, revela o estilo, introduz a trama, em suma, captura o leitor.

Lido esse capítulo, instantaneamente busquei as tais frases fundamentais nos meus livros já consumados. É notável como, de acordo com Prose, os autores dão importância a isso. Jack Kerouac, escritor cerne da geração Beat, logo de cara joga o leitor no meio de suas andanças e peregrinações sem roteiro que desenroladas não necessariamente acabam com o fim do livro. Sem rodeios, Kerouac quer mesmo transmitir certa falta de noção em suas grandes viagens, e faz isso bela e energicamente, levando o leitor junto, sem lenço nem documento.



Com Kafka (foto), segundo Francine, tem-se muito a aprender. Foi um exímio construtor de frases; um mestre das linhas de abertura – e das frases ao longo de toda sua obra. Buscava as doses certas nos momentos certos, logo, a frase primordial tornava-se de relevante importância para a sincronia do que viria a seguir.
Em A Metamorfose (comentários sobre essa obra em outra ocasião em um texto exclusivo, tamanha sua complexidade), Kafka abre com “certa manhã, ao despertar de sonhos intranqüilos, Gregor Samsa encontra-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso.” Tão vastos são conteúdo e importância presentes apenas nessas poucas palavras que toda uma análise poderia ser construída sobre a curta introdução. Difícil não querer saber quem era Gregor Samsa, por que se tornara um inseto monstruoso e ainda que inseto monstruoso fosse esse que havia se tornado (pergunta essa tão incógnita quanto a sobre a traição de Capitu).

Tanto para o leitor apaixonado como para o escritor ascendente, Francine acerta ao construir um manual leve e interessante que ensina a navegar pelas obras dos grandes escritores. Sendo seus cursos, suas palestras e seu velho amor pelas palavras material que serviu para a construção do livro, sua abordagem é diferente para nós brasileiros. Tão apaixonados pelo desenvolvimento da arte como relato da cultura ou apenas como desenvolvimento estilístico, ainda temos deficiência em cursos e materiais voltados à arte da escrita. O que deveria mudar é a boa leitura deixar de ser regra, porque aqui, infelizmente, as regras servem para não serem respeitadas, uma pena, mas verdade.